Dez perguntas sinceras para não se fazer a Sophie Calle


Por Ronaldo Entler*
Na sexta-feira, tive um encontro muito produtivo com a equipe de educadores do Videobrasil que irá trabalhar na exposição Cuide de Você, no Sesc Pompéia. Acompanho a produção de Sophie Calle desde os anos 90 e, mais recentemente, abordei alguns de seus trabalhos em minha pesquisa de pós-doc, realizada no Instituto de Arte da Unicamp, entre 2004 e 2006 (uma síntese pode ser vista em http://www.entler.com.br/textos/testemunhos_silenciosos.html).
No encontro com os educadores, tentei situar Sophie Calle num contexto mais amplo do que tem sido chamado de “fotografia contemporânea”, colocando seu trabalho em diálogo com o de outros artistas importantes como Orlan, Cindy Sherman, Nan Goldin, Christian Boltanski, Annette Messager, entre outros. Também tentei pensar o quanto “Cuide de Você” se aproxima e se distancia das obras anteriores de Sophie Calle, no que diz respeito à presença do jogo, à experiência de autoficção, aos temas amorosos e à incorporação de vozes e olhares de terceiros para expressar sentimentos pessoais.
Por fim, compartilhei com eles uma série de perguntas formuladas a partir de discussões com meus alunos de comunicação e de artes plásticas da FAAP. Chamei o resultado disso de “Dez perguntas sinceras para não se fazer a Sophie Calle”. Não só porque algumas delas poderiam parecer inconvenientes ou porque não mereceriam ser respondidas. Mas porque traduzem algumas tensões, riscos e estranhamentos que o próprio trabalho assume, e vale se colocar diante dele despido de preconceitos que essas respostas poderiam impor, se formuladas previamente. Aí vai.
1. Essa experiência é real? Ou foi forjada para resultar num trabalho?
2. Esse trabalho pode ser visto como uma espécie vingança ou, pelo menos, de terapia pública?
3. A quem interessa a vida particular de Sophie Calle? Isso não é exibicionismo?
4. Podemos entender esse trabalho como uma experiência de criação coletiva? Ou o modo como está centrado numa experiência pessoal da artista acaba por ofuscas o valor da interação com os convidados.
5. Envolver 107 mulheres, algumas delas famosas, não pode ser considerado uma demonstração de poder de uma artista que conquistou seu espaço?
6. Esse é um trabalho feminino? É compreendido mais facilmente pelas mulheres?
7. Não é falso mostrar-se frágil e romântica e, ao mesmo tempo, produzir uma experiência tão racional e planejada?
8. Essa obra sobrevive sem as histórias de seus bastidores?
9. Sophie Calle cultiva a possibilidade de estar na mídia e de ver sua experiência tratada como folhetim?
10. Que idade tem Sophie Calle? O que ela fez não soa um pouco adolescente?
(…)
Seguirei acompanhando o trabalho da equipe de educadores. Em agosto, devo estar na programação paralela à exposição, numa nova conversa sobre Sophie Calle.
* Ronaldo Entler é doutor em artes pela ECA-USP e pós-doutor em multimeios pelo IA-Unicamp, é professor das faculdades de Artes Plásticas e Comunicação e Marketing da FAAP e professor convidado pelo IA-Unicamp.
Veja a programação completa da Curadoria Educativa de Cuide de Você aqui.






